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Viva o Senhor Bom Jesus de Cuiabá!

No primeiro dia de 2026, quando a Igreja celebra o Dia Mundial da Paz, reunimo-nos, na Arquidiocese de Cuiabá, em torno da Festa do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, padroeiro profundamente ligado à fé e à história do nosso povo. Ao iniciar um novo ano aos pés da Cruz, não o fazemos como gesto de tristeza ou derrota, mas como uma escolha profundamente cristã: olhar o tempo que começa a partir do amor que se entrega.

Não é por acaso que a festa do Senhor Bom Jesus coincide com as leituras da Festa da Santa Cruz e acontece ainda no contexto da Oitava do Natal. O mesmo Deus que se fez pequeno, frágil e pobre na manjedoura de Belém é aquele que se deixa elevar na cruz. Da manjedoura à cruz, é o mesmo amor que se revela. O Natal já anuncia o mistério pascal, e a cruz ilumina o sentido mais profundo da Encarnação.

Enquanto o mundo costuma iniciar o ano fazendo promessas de sucesso, poder e prosperidade, a Palavra de Deus nos propõe outro caminho: começar olhando para a Cruz, sinal de um amor que serve e não oprime. O Menino da manjedoura não veio para dominar, mas para se doar; o Cristo da cruz confirma isso, entregando totalmente a sua vida. A cruz não é símbolo de fracasso, mas da maior vitória de Deus, que não vence pela espada, mas pelo dom da própria vida.

A profecia de Isaías nos apresenta o Servo Sofredor, aquele que não tem aparência de vencedor, é desfigurado pela dor e rejeitado, mas que justamente assim traz a salvação. Ele não levanta a voz, não impõe, não agride. Reconheço essa figura no rosto sofredor do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, no qual o nosso povo contempla um Deus que carrega as dores da humanidade para gerar vida nova.

Essa profecia se cumpre plenamente no Evangelho de João, quando Jesus é apresentado ao povo coroado de espinhos, com as palavras: “Eis o homem”. Não um homem armado, mas ferido; não um rei segundo os critérios do mundo, mas um rei cuja realeza passa pela cruz. Mesmo humilhado e condenado, Cristo permanece fiel ao amor até o fim, oferecendo ao mundo uma paz que não nasce da força.

Em sintonia com o tema do Dia Mundial da Paz, reafirmo que a paz cristã é “desarmada e desarmante”. Ela não nasce do medo, nem do acúmulo de armas, nem da imposição da violência, mas de corações desarmados do ódio, do orgulho, da indiferença e da vingança. O Senhor Bom Jesus de Cuiabá nos ensina que a cruz desarma a lógica da violência, a tentação de responder ao mal com o mal e o desejo de dominar o outro.

A história e a força da devoção ao Senhor Bom Jesus de Cuiabá, marcada pela fé simples do povo, atravessam gerações, dificuldades e provações. Não se trata de uma imagem de glória humana, mas de um Cristo ferido, diante do qual o povo aprendeu a confiar, rezar e esperar. É uma devoção que nasceu do povo e continua a sustentar o povo.

Quero refletir, ainda, sobre as “armas invisíveis” presentes no nosso cotidiano: palavras duras, preconceitos, intolerâncias e feridas cultivadas dentro das famílias, das comunidades e da própria sociedade. Começar o ano novo diante da cruz é aceitar que a paz começa em cada coração. Não haverá paz no mundo sem paz nos lares, nem reconciliação sem o aprendizado do perdão, da escuta e do recomeço.

Convido você a iniciar 2026 com um coração novo: mais simples, mais misericordioso, mais comprometido com a justiça e decidido a ser construtor da paz. Com os braços abertos na cruz, o Senhor Bom Jesus continua a acolher os cansados, os feridos pela violência, os pobres e os esquecidos, lembrando-nos os braços do Menino estendidos na manjedoura, já oferecendo ao mundo o dom da salvação.

Que o novo ano esteja sob o manto intercessor de Maria, Mãe de Deus e Mãe da Paz. Ela, que acolheu o Filho na manjedoura e permaneceu de pé aos pés da cruz, ensina-nos a guardar no silêncio do coração as dores e as esperanças da vida. Com ela, a Igreja é chamada a caminhar sem medo, sustentada pela esperança de que Deus transforma sofrimento em salvação e morte em vida.

Dom Mário Antonio da Silva
Arcebispo de Cuiabá

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