A história de Mato Grosso não pode ser contada apenas por meio de batalhas, tratados e conquistas territoriais. Entre os episódios que consolidaram as fronteiras brasileiras no Centro-Oeste, destaca-se uma devoção mariana que atravessou séculos e permanece viva até hoje: Nossa Senhora do Carmo, a “Flor mais bonita do jardim” e invocada como protetora do povo mato-grossense.
Para compreender essa devoção precisamos voltar nossos olhares para o início do século XIX, o Brasil ainda era colônia de Portugal. A antiga Capitania de Mato Grosso abrangia uma extensa área que incluía os atuais estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Para garantir a posse portuguesa sobre a região diante das constantes disputas com a Espanha, foram construídas importantes fortificações militares, entre elas o Forte Coimbra, às margens do rio Paraguai, e o Forte Príncipe da Beira, em Rondônia.
Em 1801, Portugal enfrentava um período de instabilidade provocado pelas guerras napoleônicas. A rainha D. Maria I, profundamente devota, encontrava-se afastada das funções de governo por motivos de saúde, passando a regência ao príncipe D. João, futuro Dom João VI.
Nesse contexto, foi reforçada a defesa da fronteira mato-grossense. O engenheiro militar Ricardo Franco de Almeida Serra, responsável pela construção do Forte Coimbra, levou consigo uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, colocando a fortaleza sob sua proteção.
Poucos meses depois, em 17 de novembro de 1801, cerca de 800 soldados espanhóis, comandados pelo governador Dom Lázaro de Ribera y Espinosa, cercaram o Forte Coimbra, defendido por apenas 150 militares portugueses e brasileiros.
Ao exigir a rendição da fortaleza, recebeu do comandante brasileiro uma resposta que entrou para a história: “Não será possível entregar o Forte. Nós, soldados portugueses e brasileiros, devemos repelir o inimigo ou ser sepultados ao redor do Forte.”
Durante dez dias, os defensores resistiram ao cerco. Segundo a tradição preservada pelos militares e pela Igreja, os espanhóis acabaram desistindo do ataque após a redução do nível das águas do rio Paraguai, temendo que seus navios ficassem encalhados. A retirada foi atribuída pelos soldados à intercessão de Nossa Senhora do Carmo, fortalecendo ainda mais a devoção à padroeira.
A resistência foi decisiva para preservar a soberania portuguesa sobre a região. Pouco mais de vinte anos depois, o Brasil conquistaria sua independência. Sem aquela vitória, parte do atual território mato-grossense poderia ter integrado alguma das futuras repúblicas de origem espanhola.
Mais de seis décadas depois, a história voltaria a colocar Nossa Senhora do Carmo no centro de um dos momentos mais dramáticos da fronteira brasileira.
Pois foi em dezembro de 1864, durante a Guerra do Paraguai, que o Forte Coimbra foi novamente cercado, desta vez por forças paraguaias muito superiores.
Após as celebrações do Natal, no dia 27 de dezembro, quatro navios paraguaios aproximaram-se da fortaleza exigindo sua rendição. O comandante brasileiro, coronel Vicente Barrios, consultou o oficial Hermenegildo Porto Carreiro, que respondeu mantendo a honra militar: “Segundo os regulamentos que regem o Exército Brasileiro, este forte somente será tomado pela sorte e honra das armas.”
A batalha iniciou-se imediatamente. No primeiro dia os brasileiros resistiram. No segundo, a situação tornou-se crítica: a munição estava praticamente esgotada.
Durante toda a noite, as mulheres que acompanhavam os militares no período natalino, passaram a confeccionar cartuchos utilizando papel, tecidos e até mesmo as próprias anáguas. Entre elas destacava-se Dona Ludovina Porto Carreiro, cuja coragem ficou registrada na memória da guerra.
No fim do segundo dia de combate, percebendo que já não havia condições de resistência, Dona Ludovina entregou a imagem de Nossa Senhora do Carmo a um soldado corneteiro, pedindo que a colocasse sobre a muralha do forte.
Enquanto a imagem era erguida, os brasileiros passaram a gritar: “Viva Nossa Senhora do Carmo!”
Segundo os relatos históricos, até mesmo os soldados paraguaios responderam à saudação mariana. Naquela mesma noite, de forma inesperada, o exército inimigo iniciou sua retirada, fato que os sobreviventes atribuíram novamente à proteção da Virgem do Carmo.
Após o cessar fogo, a retirada estratégica do Forte Coimbra foi necessária, mais de uma centena de brasileiros abandonou a fortaleza levando consigo a imagem de Nossa Senhora do Carmo. A imagem foi carregada pela filha de Dona Ludovina durante toda a viagem até chegar em Cuiabá.
Os sobreviventes foram recebidos pelo então bispo Dom José Antônio dos Reis, o primeiro bispo de Cuiabá.
A imagem permaneceu sob os cuidados da então Paróquia São Gonçalo de Pedro II, atual Paróquia São Gonçalo do Porto, tornando-se rapidamente objeto de intensa veneração dos cuiabanos.
Em 1867, as tropas brasileiras retomaram Corumbá. No entanto, a vitória trouxe uma consequência devastadora.
A região encontrava-se assolada pela varíola, doença que rapidamente alcançou Cuiabá e provocou uma das maiores tragédias sanitárias da história da cidade. Estima-se que cerca de metade da população tenha morrido durante a epidemia.
Foi nesse período que surgiu o antigo Cemitério do Cai-Cai. No local foi construída uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo, onde permaneceu a imagem milagrosa que havia sido retirada do Forte Coimbra.
A epidemia também atingiu duramente a Igreja, vitimando 12 padres cuiabanos, que dedicavam suas vidas ao atendimento dos enfermos.
Com a situação estabilizada, o bispo Dom José Antônio dos Reis determinou que a imagem retornasse ao Forte Coimbra.
A despedida aconteceu em 27 de junho de 1874, dez anos depois, e entrou para a memória religiosa de Cuiabá como uma das mais belas procissões já realizadas na cidade.
A imagem percorreu as ruas ornamentadas pelos moradores, passando pela então Rua Bela do Juiz — posteriormente denominada Rua 13 de Junho, em referência à retomada de Corumbá em 13 de junho de 1867.
Veteranos da Guerra do Paraguai acompanhavam emocionados a procissão, repetindo uma frase que se tornaria símbolo daquela geração: “Quem libertou foi Nossa Senhora do Carmo”
Padroeira dos Militares
A profunda ligação entre Nossa Senhora do Carmo e o Exército Brasileiro permanece até os dias atuais.
A Capelania Militar, o 13º Pelotão de Polícia do Exército, o 44ºBatalhão de Infantaria Motorizado e o 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC), por exemplo, mantêm sua consagração à Virgem do Carmo, reconhecendo-a como protetora dos militares e guardiã daqueles que dedicam suas vidas à Nossa Senhora do Carmo.
A devoção a Nossa Senhora do Carmo permanece viva na Arquidiocese de Cuiabá e é cultivada em diversas comunidades. Além de ser a padroeira da Capelania Militar, a Virgem do Carmo é venerada na Igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora da Guia, em Várzea Grande; na Paróquia Mãe dos Homens, no Centro de Cuiabá; na Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito; na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na região do Vila Verde; na Paróquia Santo Antônio de Leverger, por meio da Comunidade de Fronteira; e no Carmelo São José, localizado no bairro Cristo Rei, em Várzea Grande. Esses espaços de fé mantêm viva a tradição carmelita e testemunham a forte presença da devoção mariana entre os fiéis da Arquidiocese.